Quando a Adoção é Desfeita: um relato sobre vínculo, adaptação e os desafios da desvinculação familiar após a adoção
O que acontece quando uma adoção não se consolida? Reflexões para quem deseja adotar, está no processo de adoção ou vive uma experiência de ruptura do vínculo familiar
Por Prosaterapia

Este não é um texto contra a adoção... é antes de tudo, um texto sobre a responsabilidade de falar sobre ela com honestidade, e talvez tocar em um conteúdo real que não é dito, que é silenciado por diversos fatores.
É uma reflexão de quem acreditou na adoção, se preparou para ela, sonhou com a construção de uma família e viveu, posteriormente, as consequências emocionais de quando esse vínculo não consegue se consolidar.
Há experiências que nos transformam para sempre , algumas chegam como sonhos realizados, outras, como acontecimentos que jamais imaginamos viver. E existem aquelas que nos obrigam a reconstruir nossa própria compreensão sobre amor, família, vínculos, parentalidade e proteção.
Este texto nasce de uma experiência real, vivida por uma família que, em determinado momento de sua trajetória, decidiu abrir o coração e a casa para a adoção.
Uma experiência que começou com um projeto de construção familiar, passou por um processo de aproximação e adaptação e, posteriormente, terminou com a anulação da adoção e a desvinculação familiar após a adoção.
Por respeito à privacidade de todos os envolvidos, especialmente da criança, nenhum nome será mencionado. Também não serão apresentados dados que permitam sua identificação.
O objetivo não é expor uma criança, tampouco transformar uma experiência complexa em uma busca por culpados individuais.
O objetivo é outro:
Refletirmos juntos sobre o que pode acontecer quando a construção de vínculos não acompanha o ritmo das decisões jurídicas e administrativas, quando informações importantes não chegam de forma adequada a todos os envolvidos e quando uma adoção é conduzida para sua conclusão sem que o vínculo afetivo esteja suficientemente consolidado.
Esta é uma reflexão para quem pensa em adotar, para quem já está no processo de adoção, para famílias que enfrentam dificuldades de adaptação e também para profissionais que atuam na rede de proteção.
Esse é um assunto real e descobrimos que não fomos as únicas a viver isso, entretanto em nossa percepção, boa parte dos textos e notícias que encontramos costuma enfatizar a responsabilidade dos adotantes e a irrevogabilidade da adoção, deixando pouco espaço para discutir situações excepcionais.
Porque, às vezes, falar sobre aquilo que não funcionou pode ajudar outras pessoas a construírem caminhos mais seguros.
Durante o curso de postulado a adoção podemos reforçar que Adotar não é apenas receber uma criança em casa, antes de qualquer adoção, existe uma história.
Existe uma criança com uma trajetória própria, com experiências anteriores, medos, desejos, referências afetivas e uma identidade que precisa ser respeitada.
E existem também os adultos que desejam adotar, carregando expectativas, sonhos e uma preparação emocional construída ao longo do tempo. O encontro entre essas duas histórias não acontece automaticamente. É preciso construir uma terceira história:
a história do vínculo.
E vínculos não obedecem a prazos administrativos.
Não se constroem porque um documento foi assinado.
Não surgem porque uma criança passou a dormir em determinado quarto ou porque uma família preparou uma casa para recebê-la. Vínculo precisa de tempo, e muitas vezes as instituições responsáveis não agem de forma preventiva, ponderada e norteadora nesse momento.
Precisa-se de escuta. Precisa-se de segurança. Precisa-se de acompanhamento.
E, sobretudo, precisa existir espaço para que todos possam dizer, com honestidade, quando algo não está funcionando. E não uma indução para que seja mais um processo concluído. Menos uma demanda ao sistema...
Quando uma história anterior de adoção precisa ser verdadeiramente considerada.
Antes de nossa aproximação, a criança já havia vivido uma tentativa anterior de adoção,e esse é um dado que consideramos extremamente relevante.
Uma criança que já passou por uma tentativa de adoção que não se consolidou chega a uma nova aproximação carregando uma experiência anterior de ruptura, expectativas, possíveis frustrações e, naturalmente, sentimentos que precisam ser compreendidos.
Em nossa experiência, porém, percebemos que os reais motivos pelos quais a tentativa anterior não havia se consolidado não foram apresentados a nós com a profundidade que considerávamos necessária.
Posteriormente, durante a convivência, a própria criança verbalizou para nós que não tinha interesse em viver com um casal homoafetivo.
Nós somos um casal homoafetivo.
E, segundo aquilo que a própria criança nos contou, sua experiência anterior também havia envolvido uma tentativa de adoção por um casal homoafetivo masculino.
Diante disso, passamos a nos perguntar:
Como uma nova aproximação com outro casal homoafetivo poderia ser construída sem que essa questão fosse profundamente investigada e trabalhada?
O que foi nos dito pela Equipe responsável, foi que os possíveis adotantes "não conseguiram se adaptar a criança". Em nossa percepção, informações que posteriormente consideramos relevantes não nos foram apresentadas com a profundidade necessária. Tivemos a impressão de que determinados aspectos da experiência anterior receberam um peso diferente daquele que, mais tarde, percebemos possuir.
Não se trata de afirmar que uma criança deve necessariamente ter seu desejo atendido em todos os aspectos.
Crianças e adolescentes precisam ser acompanhados, orientados e protegidos, e seus desejos precisam ser compreendidos dentro de todo o contexto de sua história.
Mas existe uma diferença fundamental entre ouvir uma criança e simplesmente presumir que aquilo que ela sente não é relevante.
Se uma criança já viveu uma tentativa anterior de adoção por um determinado perfil familiar e posteriormente expressa resistência ou desconforto em relação a esse mesmo perfil, essa informação precisa ser considerada com seriedade. Não para determinar automaticamente o destino de uma adoção.
Mas para que se possa compreender:
O que ela está dizendo?
Por que está dizendo?
Isso representa um medo?
Uma experiência anterior?
Uma crença?
Uma preferência?
Uma dificuldade de adaptação?
Uma resistência que pode ser trabalhada?
Ou um sinal de que aquele perfil familiar não é, naquele momento, aquele com o qual ela consegue construir um vínculo? Essas perguntas precisavam ter espaço.
Na nossa experiência, porém, essa questão não foi apresentada previamente pela equipe com a relevância que, posteriormente, percebemos que possuía.
Ressaltamos:
Uma criança não deveria ser encaminhada para uma nova experiência de adoção sem que os aspectos relevantes de sua experiência anterior sejam devidamente considerados e trabalhados.
Não basta informar que uma adoção anterior "não deu certo". É preciso compreender por que não deu certo. Porque os motivos de uma ruptura anterior podem ser fundamentais para avaliar a possibilidade de uma nova aproximação.
Quando a preparação para o encontro começa pelas coisas, e não pelas pessoas
Essa é uma abordagem relevante e orientamos uma Atenção especial com as solicitações da equipe, é necessário que tenhamos um nível de conhecimento e não seguir "cegamente" todas as orientações, verificar, e lembrar que os profissionais, como qualquer pessoa, podem ter diferentes interpretações, crenças e formas de compreender situações complexas. Por isso, é importante que as famílias também façam perguntas e busquem compreender todas as informações disponíveis.
Como vivíamos em cidades diferentes, antes de viajarmos para o período presencial de aproximadamente quinze dias de aproximação e adaptação, fomos orientadas pela equipe responsável pelo processo de adoção a apresentar aspectos da nossa vida cotidiana.
A equipe, formada por profissionais da área psicossocial, solicitou que enviássemos fotos da nossa casa, do quarto que estava sendo preparado para a criança, do trabalho, dos nossos animais de estimação e de outros elementos relacionados à nossa estrutura familiar e material.
Também fomos orientadas a apresentar aspectos da nossa rotina e do ambiente que a criança encontraria.
O que vivenciamos, porém, foi uma ênfase muito significativa naquilo que poderíamos oferecer materialmente.
A casa.
O quarto.
Os objetos.
Os animais.
A estrutura.
As possibilidades.
A equipe nos conduziu a apresentar aquilo que tínhamos.
E, olhando retrospectivamente, entendemos que houve uma tendência nesse direcionamento, percebemos que a preparação da criança para conhecer a família foi construída dando um peso muito grande às coisas que ela teria, e não necessariamente à construção gradual do vínculo com as pessoas que passariam a fazer parte de sua vida.
Essa diferença, para nós, foi fundamental.Porque uma criança não precisa apenas saber onde vai morar. Ela precisa começar a conhecer quem serão as pessoas com quem vai viver, e percebemos que o que incluímos sobre nós em detalhes a criança já não dava o devido valor.
Precisaria ser conduzida a conhecer os valores da família, sua personalidade, sua maneira de demonstrar afeto, sua rotina, sua forma de estabelecer relações. Precisa ter oportunidade de construir uma imagem realista da família, e não apenas uma expectativa sobre aquilo que ela poderá receber.
Ao longo da convivência, percebemos que a criança verbalizava uma valorização muito grande das coisas que encontraria.
E nós começamos a perceber que ela parecia estar chegando àquela relação muito mais interessada naquilo que teria do que na construção de um vínculo afetivo conosco.
Isso não surgiu apenas espontaneamente. Foi também algo que, na nossa experiência, acabou sendo reforçado pela própria forma como o processo de aproximação foi conduzido.
E essa constatação nos deixou uma pergunta que ainda hoje consideramos fundamental:
Quando uma criança é preparada para conhecer uma família, o que estamos apresentando: as coisas que essa família possui ou as pessoas que essa família é?
Porque uma criança pode se encantar com um quarto novo.Pode desejar uma casa bonita. Pode querer um animal de estimação.Pode sonhar com brinquedos, viagens e novas experiências.
Mas nenhuma dessas coisas garante que ela conseguirá estabelecer um vínculo afetivo.
Uma família não pode ser apresentada apenas pelo que possui.Ela precisa ser apresentada pelo que é. E, principalmente, precisa existir espaço para que o vínculo entre as pessoas seja construído de forma genuína.
Pertencimento não nasce de uma certidão
Atenção mais que especial a esta reflexão tambem que se tornou ainda mais importante porque, em determinado momento, percebemos uma influência durante a condução na expectativa de que a conclusão da adoção pudesse proporcionar maior segurança e pertencimento.
A adoção acabou sendo concluída em aproximadamente três meses.
Quando percebemos que a situação era mais complexa do que uma simples dificuldade inicial de adaptação, buscamos novamente orientação junto à equipe responsável, a criança ja fazia terapia, e durante as poucas video chamadas não falava de suas dificuldades, das resistencias fisicas, da demonstração de não satisfação, de não vontade de vinculação. Foi nesse momento que, segundo nossa experiência, passamos a vivenciar uma abordagem ainda maior no sentido de que a adoção deveria seguir adiante e ser concluída ma condução do processo.
Em vez de encontrarmos um espaço suficientemente aberto para discutir se o vínculo estava efetivamente se formando, percebemos uma tendência para que continuássemos avançando em direção à conclusão definitiva da adoção.
A mensagem que recebíamos era, em essência, que a formalização da adoção poderia trazer mais segurança e pertencimento à criança.
Foi assim que ouvimos dentro da condução do processo:
" vai ser uma virada de chave para ela"
Que, uma vez concluído o processo, a adaptação poderia melhorar. Que a criança poderia se sentir mais segura. Que o vínculo poderia se fortalecer depois da formalização.E foi nesse contexto que, hoje olhando retrospectivamente, entendemos que a equipe de assistência social e psicologia não apenas acompanhou o processo, mas também o direcionou para a sua conclusão.
Essa é uma das partes mais difíceis da nossa experiência.Porque, naquele momento, nós estávamos buscando ajuda justamente para compreender se aquela adoção estava realmente funcionando. E, em vez de sentirmos que havia liberdade para considerar todos os caminhos possíveis, vivenciamos uma orientação que nos conduzia a continuar.
A adoção precisava avançar.
A adaptação precisava acontecer.
A conclusão parecia ser o caminho esperado.
Mas nós nos perguntamos:
E se o vínculo não estiver acontecendo?
E se a criança estiver dizendo, de diferentes maneiras, que não está conseguindo se vincular?
E se os adotantes também estiverem percebendo que algo fundamental não está se estabelecendo?
Nessas situações, o papel da equipe deveria ser apenas incentivar a continuidade?
Ou deveria ser, sobretudo, avaliar com profundidade se aquele vínculo estava realmente sendo construído?
Essa é uma pergunta que permanece conosco.
Naquele momento, nós seguimos otimistas e confiando nas orientações da equipe que ao nosso ver sabiam o que estavam fazendo, seguimos acreditando que talvez a formalização da filiação pudesse realmente ajudar a consolidar aquilo que ainda estava em construção. Acreditamos que, com o tempo, a convivência poderia se fortalecer. Que a criança poderia se sentir mais segura. Que o sentimento de pertencimento poderia surgir. Que o vínculo poderia se desenvolver. Mas a realidade nos ensinou algo diferente. Pertencimento não nasce de uma certidão. Uma certidão pode reconhecer juridicamente uma filiação. Mas não pode criar, sozinha, um vínculo afetivo. Um documento pode mudar um sobrenome. Mas não consegue, sozinho, transformar uma relação. Uma decisão judicial pode estabelecer direitos e deveres. Mas não pode obrigar o coração de uma criança a sentir aquilo que ainda não sente.
Talvez seja justamente por isso que os processos de adoção precisem ser conduzidos com ainda mais cuidado quando envolvem crianças maiores e adolescente,afinal....Uma vez terminado o processo seria irrevogável. A adoção não deveria ser o ponto final de um processo de aproximação.
Ela deveria ser a consequência de um vínculo suficientemente construído e avaliado.
A adoção foi concluída. Mas o vínculo não aconteceu como acreditamos.
Depois que a adoção foi concluída, aconteceu algo que nos obrigou a olhar para a realidade com ainda mais atenção.Na nossa percepção, a construção do vínculo não aconteceu, e a criança manifestava reiteradamente que não desejava permanecer naquela configuração familiar.
Com o passar do tempo, nossa percepção de que a relação afetiva não estava se construindo tornou-se cada vez mais forte.
Nós não desistimos diante dos primeiros obstáculos. Tentamos compreender. Mantivemos tratamento psicológico ao nossos custos para todas. Acompanhamento psiquiátrico. Atividades físicas. Acompanhamento escolar. Cuidados emocionais. Recursos espirituais.
Permanecemos oferecendo segurança, acolhimento, estrutura e afeto. Quando percebemos que a situação era mais complexa do que uma simples dificuldade inicial de adaptação, fizemos aquilo que acreditávamos ser o mais responsável:
procuramos a equipe que havia participado do processo de adoção.
Voltamos a buscar orientação justamente com os profissionais que haviam acompanhado a aproximação e a adaptação. Nós não queríamos simplesmente desistir. Não queríamos tomar uma decisão precipitada. Queríamos entender. Queríamos saber o que poderíamos fazer. Queríamos ajuda para compreender aquela realidade.
Queríamos saber como agir diante de uma criança que parecia não estar conseguindo construir conosco o vínculo que esperávamos que fosse se estabelecer, e já tinha se passado 1 ano após a adoção.
Foi nesse momento que, segundo nossa experiência, recebemos uma orientação que nos marcou profundamente.
Em vez de sermos encorajadas a aprofundar a escuta da criança, compreender o que ela estava expressando e avaliar cuidadosamente a situação, fomos desmotivadas a seguir por esse caminho.
Fomos alertadas de que, caso insistíssemos em questionar a continuidade daquela situação e em considerar seriamente aquilo que a criança vinha expressando, poderíamos correr o risco de responder a um processo judicial na condição de rés.
Para nós, essa orientação teve um efeito muito concreto, porque estávamos diante de uma situação em que buscávamos ajuda justamente para proteger todos os envolvidos , a criança, nós mesmas e a própria relação familiar , e, naquele momento, a mensagem que recebemos foi de que questionar a situação poderia nos colocar em uma posição de risco.
Isso nos colocou diante de um dilema muito doloroso. Deveríamos permanecer em silêncio e seguir adiante, mesmo percebendo que algo não estava funcionando?Ou deveríamos continuar buscando respostas?
Nós escolhemos buscar a verdade.
Não ignoramos aquilo que estávamos percebendo.
Não fingimos que estava tudo bem. Não escolhemos simplesmente seguir o fluxo porque a adoção já havia sido concluída. Continuamos procurando compreender. Continuamos tentando encontrar caminhos. A criança expressou claramente o desejo de não estar em nossa família e retornar ao Estado a que pertencia ou a um abrigo, buscamos ajuda da rede de apoio institucional da região onde residiamos. Uma situação complexa. Continuamos ouvindo. E, acima de tudo, continuamos tentando entender o que estava acontecendo naquela relação.Não estávamos buscando uma forma de abandonar uma criança.Estávamos buscando uma forma de compreender por que o vínculo não estava acontecendo e o que poderia ser feito para proteger todos os envolvidos.
Hoje, olhando para trás, percebemos que existe uma questão que precisa ser discutida:
Se uma família procura a equipe responsável pelo processo de adoção depois da sua conclusão para dizer que percebe que o vínculo não está se consolidando, qual deveria ser a resposta da rede de proteção?
Deveria ser o medo?
Deveria ser o silêncio?
Deveria ser o receio de consequências jurídicas?
Ou deveria existir um espaço protegido para que todos pudessem falar?
Para que a criança pudesse ser ouvida?
Para que os adotantes pudessem relatar suas dificuldades?
Para que profissionais especializados pudessem avaliar a situação?
Para que, se necessário, fossem construídas novas estratégias de cuidado?
Essa é uma pergunta que permanece conosco.
Porque, em nossa experiência, a conclusão jurídica da adoção aconteceu rapidamente, mas a construção emocional do vínculo não acompanhou o mesmo ritmo.E quando percebemos isso, já depois da adoção concluída, buscamos ajuda. Mas não encontramos o espaço de escuta que esperávamos da propria equipe do rio grande do sul.
Ainda assim, decidimos não ignorar a realidade.
Decidimos continuar buscando respostas aqui na região , e o CREAS após diversos atendimentos foi ímpar, na identificação que de fato era um caso excepcional.
E foi justamente essa busca pela verdade, mesmo, diante do medo e do desestímulo, que nos levou a reconhecer que aquela situação precisava ser profundamente revista, conversamos novamente com a ccriança ela mostrava pelo corpo e por palavras claramente ditas que não queria permanecer. Então procuramos um advogado por nossas custas.
Não se tratava apenas de uma dificuldade de adaptação
Hoje, olhando para trás, compreendemos que o que vivenciamos não foi simplesmente uma dificuldade comum de adaptação.Era uma situação muito mais complexa. Havia uma criança que apresentava resistência ao vínculo. Havia uma família que estava tentando construir uma relação.
Havia uma mudança de cidade e de estado. Havia uma ruptura com referências anteriores. Havia uma nova casa.Uma nova rotina.Novas relações. Havia uma história anterior de tentativa de adoção que precisava ser compreendida. E havia, ainda, uma expectativa institucional de que todo esse processo culminasse rapidamente na consolidação jurídica da adoção. A nossa experiência é que o processo foi conduzido para que a adoção fosse concluída, mesmo diante dos sinais de que o vínculo afetivo ainda não estava suficientemente estabelecido. Essa é a nossa vivência. Essa é a nossa percepção a partir de tudo aquilo que vivemos e dos atendimentos que recebemos. E é justamente por isso que acreditamos que essa discussão precisa ser ampliada. Não para atacar profissionais individualmente. Não para expor uma criança.Mas para questionar um modelo de condução que pode, em determinadas circunstâncias, colocar a conclusão do processo à frente da construção efetiva do vínculo.
Em nenhum momento tivemos medo da criança ser ouvida, pelo contrário, fomos amplificadoras de sua própria voz.
Ouvir a criança não deveria ser um risco
Uma criança que diz "eu não quero" precisa ser ouvida.E uma família que percebe que algo está errado também precisa ser ouvida.
É necessário existir espaço para o:"Não sei." Para o:
"Não estou conseguindo." Para o: "Essa criança não está bem." Para o: "Essa família não está conseguindo ainda com todo suporte buscado."Para o: "Precisamos parar e avaliar." Tem algo aí, será que não culminou no essencial que é a vinculação?
Porque talvez a verdadeira proteção não esteja em fazer o processo avançar a qualquer custo. Talvez esteja em ter coragem para interromper, escutar e reavaliar quando os sinais indicam que algo não está funcionando. A criança não deveria ter medo de dizer que não está feliz. A família não deveria ter medo de dizer que não está tendo vínculo estabelecido. E os profissionais não deveriam ter medo de reconhecer que uma decisão precisa ser revista.
Assim como a nossa, existem histórias de adoção que não conseguem se consolidar, e falar sobre isso ainda é muito difícil. Há uma espécie de silêncio em torno dessas experiências. A sociedade costuma imaginar que, uma vez iniciado o processo, todos devem seguir até o fim a todo custo, omitindo as vezes o que seria essencial. Como se admitir dificuldades fosse uma espécie de fracasso moral.
Mas precisamos falar sobre isso com mais humanidade.Porque quando uma adoção não se sustenta, não existe apenas uma pessoa sofrendo.
Existe a criança.Existem os adotantes. Existem as famílias de origem. Existem profissionais envolvidos. Existe uma rede inteira que precisa lidar com as consequências.
E, em situações excepcionais, pode acontecer aquilo que aconteceu conosco: a adoção ser posteriormente desconstituída, produzindo uma desvinculação familiar depois de a filiação já ter sido juridicamente estabelecida.
São casos excepcionais, mas eles existem!
Esse tipo de experiência precisa ser discutido com responsabilidade.Porque a desconstituição jurídica pode encerrar um vínculo no papel. Mas não encerra automaticamente a experiência emocional vivida por aqueles que participaram dela.Por isso, quando uma adoção é desfeita, a pergunta não deveria ser apenas: "O que aconteceu?"
Mas também:
"Como estão todos depois disso?"
Quem acompanha a criança?
Quem acompanha os adultos?
Quem oferece suporte psicológico?
Quem ajuda a elaborar o rompimento?
Quem avalia os impactos emocionais?
Quem acompanha a reconstrução dos vínculos?
O que acontece depois que os documentos são alterados novamente?
Porque uma sentença pode reorganizar registros jurídicos. Mas não reorganiza automaticamente os sentimentos. E olha que tivemos uma demora de 8 meses na mudança de documentação. O próprio processo de desfiliaçao levou 8 meses. Com a criança e nós sofrendo e negando o ambiente que estava . Em resumo a criança passou 1 ano e 8 meses sob nossa tutela.
E o pós-ruptura ? Ele também precisaria ser olhado.
Uma experiência de ruptura pode deixar marcas profundas. Por isso, é fundamental que exista acompanhamento posterior. A criança precisa ser acompanhada emocionalmente. A família que vivenciou a experiência também. Não se trata de procurar culpados. Trata-se de reconhecer que situações complexas produzem consequências complexas. Em nossa experiência, percebemos a necessidade de buscar, por conta própria, apoio psicológico, psiquiátrico e outras formas de cuidado para lidar com as consequências emocionais vivenciadas.
Isso nos fez pensar:
Se os adultos precisam de acompanhamento para elaborar uma experiência tão intensa, como garantir que a criança também esteja recebendo o cuidado emocional necessário?
Essa pergunta não nasce de julgamento. Nasce da preocupação humana.
O sistema precisa olhar para além do processo
Talvez um dos maiores aprendizados seja perceber que nenhum processo judicial consegue, sozinho, dar conta da complexidade humana. Existem documentos. Existem prazos. Existem relatórios. Existem avaliações. Existem decisões.
Mas existem também pessoas.
E pessoas não cabem inteiramente em processos.
Uma criança não é um número. Uma família não é apenas um cadastro.Uma adoção não é apenas uma mudança no registro civil.
É uma transformação profunda na identidade e na história de todos os envolvidos. Por isso, a proteção integral precisa considerar não apenas o aspecto jurídico, mas também o psicológico, emocional, afetivo e social.
O que podemos aprender com uma adoção desfeita?
Para quem pensa em adotar, talvez a primeira reflexão seja:
Não tenha pressa para amar.
O amor não precisa ser produzido artificialmente.
Questione a equipe, não acredite em todas orientações. O vinculo pode nascer. Pode crescer. Pode precisar de ajuda.Pode até não acontecer da forma esperada.
E reconhecer isso, quando necessário, também pode ser uma forma de cuidado.
Para quem já está no processo de adoção:
Permita-se fazer perguntas.
Pergunte.
Observe.
Escute a criança.
Escute a si mesmo.
Procure ajuda especializada.
Não tenha medo de comunicar dificuldades.
A adoção não deve ser vivida como uma prova em que você precisa demonstrar que é capaz de suportar qualquer coisa. Ela é uma construção de vínculos. E vínculos precisam de espaço para serem verdadeiros.
Para quem trabalha na área da infância e juventude, fica uma reflexão:
Que a escuta seja verdadeira. Que a criança possa falar. Que os adotantes possam falar. Que os profissionais possam reconhecer quando algo precisa ser revisto. Que o tempo do vínculo seja respeitado. E que decisões importantes nunca sejam tomadas apenas porque o processo precisa avançar.
Para a sociedade, fica outro aprendizado:
Nem toda história de adoção termina como imaginamos. E isso não significa que devemos desistir da adoção. Significa que precisamos falar sobre ela com mais responsabilidade, mais transparência e mais humanidade.
Em nosso caso tivemos impacto financeiros, emocionais e sociais, recebemos julgamentos, afastamentos , enfim. E depois do auge da dor, uma escolha: Algumas experiências nos deixam feridas. Outras nos deixam perguntas.
E algumas nos dão uma responsabilidade que não escolhemos, mas que podemos transformar em propósito. Hoje, olhando para trás, entendemos que nossa história não precisa ser apenas uma história de dor. Ela pode ser também uma oportunidade de reflexão. De questionamento, conscientização, cuidado com outras famílias e cuidado com outras crianças.Porque talvez a verdadeira transformação aconteça quando conseguimos olhar para aquilo que nos machucou e perguntar:
O que podemos fazer para que outras pessoas não precisem passar pelo mesmo?"
Não escrevemos este relato para alimentar conflitos.Escrevemos porque acreditamos que falar sobre experiências difíceis, com responsabilidade e respeito, pode ajudar a construir processos melhores. Que nenhuma criança seja apenas encaminhada. Que ela seja verdadeiramente escutada.
Que nenhuma família seja apenas avaliada. Que ela também seja verdadeiramente acompanhada.
Que nenhuma adoção seja conduzida apenas como um procedimento a ser concluído. Que ela seja compreendida como a construção de um vínculo humano.
E que, quando esse vínculo não conseguir se consolidar, exista também uma rede capaz de acolher, acompanhar e cuidar de todos os envolvidos na ruptura. Porque, acima de qualquer procedimento, documento ou decisão, nunca nos esqueçamos de que estamos falando de seres humanos.
Aqui no Prosaterapia, acreditamos que processos de transformação precisam considerar o ser humano em sua integralidade: sua história, suas emoções, seus vínculos e sua capacidade de reconstrução.
Algumas histórias não podem ser mudadas. Mas podem ser ressignificadas.
E, quando compartilhamos nossas experiências com responsabilidade, podemos transformar uma dor individual em uma oportunidade coletiva de aprendizado
Com amor e luz ,
@prosa.terapia



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